Rua do Saco

Outubro 25 2010

Levei muito tempo a aprender.

 

Não é que não tenha tido quem me ensinasse.

 

Mas há coisas que só o tempo, a idade, nos ensinam.

 

Assim dizia o saudoso Mestre Valente, da Fábrica onde dei os meus primeiros passos como engenheiro (e onde, em rigor, aprendi a profissão).

 

Eu já conheci o Mestre Valente em idade avançada, perto da reforma (talvez até já estivesse reformado, mas em actividade, por mútuo interesse e acordo com a fábrica).

 

Falava baixo, muito baixo e explicava: “-Sabe, Sr. Engenheiro? Falar baixo é a melhor maneira de a gente se fazer ouvir.”

 

Tive imensas “pegas” com o Mestre Valente.

 

Ele vinha da carreira oficinal, começando como aprendiz na antiga Fábrica de Cartuchame E Pólvoras Químicas e era um cartucheiro rude, mas muito sabedor.

 

Muito modesto, na sua sabedoria. Julgo que havia pouca gente que conhecesse como ele aquilo que fabricávamos.

 

Nunca o vi rir, ou mesmo sorrir.

 

Eu era um jovem oficial e engenheiro, saído de prestigiadas Escolas do País, Doutorado no estrangeiro e seu superior hierárquico. Ao contrário do Mestre, eu falava alto. E desconfiava dele, pensando que as “pegas” eram só tentativas para pôr a nu o maior valor da sua experiência em confronto com os meus conhecimentos teóricos.

 

Só muito mais tarde fui aprendendo e recordando o Mestre Valente.

 

Não resisto a contar, a propósito:

 

Um dia, após uma “pega” em que eu tinha comigo a razão (uma “pega” ganha por mim), disse-me, sempre na sua voz baixa: -“Sr. Engenheiro: Há realmente coisas que só se aprendem com a experiência e que só a vida nos ensina. Mas há outras, que só se aprendem nos livros.”

 

Na minha vida, fui falando cada vez mais baixo, e só agora (um pouco tarde, reconheço) falo no tom de voz dos sábios (não quero dizer, longe de mim, que sou um deles).

 

Em devido tempo percebi que uma carreira política me estaria vedada, por limitações minhas (a de falar alto incluída).

 

Mas o que se passa no nosso País com o maior partido da oposição apenas confirma a minha convicção de que tudo o que os seus últimos líderes tinham a fazer era, não falar baixo, mas estar calados.

 

Mais: deviam estar quietos.

 

Eu até compreendo a Dr.ª Manuela. Era nítido o frete que a senhora andava a fazer, e há que saudar o sacrifício que andava a fazer, tão contrariada.

 

Compreendo, por isso, que tenha optado por falar, e, ainda por cima, por falar verdade.

 

Ela sabia que essa era a melhor forma de ser corrida e ser, finalmente, aliviada do sacrifício.

 

Mas não compreendo o actual líder, que eu julguei desejar vir a ganhar eleições e ser Primeiro-Ministro.

 

É bom que o partido comece a procurar o próximo líder com o compromisso de não abrir a boca, nem mexer.

 

É a única estratégia válida para destronar o partido no poder.

 

Podem até chamar um Tiririca. Pior do que está não fica.

 

Até podem chamar o FMI. Ou então tirem-me daqui.

publicado por jpargana às 12:54

Este blog é uma colectânea de reflexões do autor sobre temas de interesse geral e da sociedade e ambiente que o rodeiam.
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