Rua do Saco

Novembro 18 2012

Vi (ninguém me contou) uma reportagem da Sic Notícias sobre o rescaldo dos distúrbios da tarde e noite de 14 de Novembro.

 

Fiquei a saber, afinal, quem tinha deixado o rasto de destruição em frente da Assembleia (que já foi Nacional e que agora é só da República) e nas ruas adjacentes.

 

A menina jornalista (certamente detentora de uma licenciatura, mestrado ou doutoramento em Comunicação Social, que me perdoe por não lhe ter fixado o nome) repetiu por diversas vezes, enquanto nos mostrava o estado em que aquela zona da cidade ficou:

 

- “…o rasto de destruição deixado pela passagem da carga policial…”

 

Fiquei atónito.

 

Afinal, os meus olhos, que viram as transmissões em directo, enganaram-me!

 

Afinal, quem deixou o rasto de destruição foi a carga policial!!

 

E veio à minha memória uma história que se contava no Estado Novo:

 

Era o tempo em que os jornalistas não tinham licenciatura, mestrado ou doutoramento em coisa nenhuma. Eram semianalfabetos, lacaios do Poder, que vendiam a sua consciência por migalhas.

 

Um dia, um leão fugiu do Jardim Zoológico e, após espalhar o pânico por toda a cidade, foi ter ao Rossio.

 

Após debandada de toda a gente que naquela Praça se encontrava, um pacífico freguez do café Nicola, pousou a sua chávena de café (de saco) ainda por terminar e enfrentou a fera.

 

Após terrível combate, o nosso herói dominou a fera, acabando a peleja com a morte da besta, regressando o homem ao Nicola onde nova chávena de café (de saco) recém-passado lhe foi servida (agora, por oferta da casa).

 

Lavrou grande regozijo na Baixa e veio gente de longe e de toda a cidade aclamar o herói.

 

E veio também um jornalista do defunto “Diário da Manhã” entrevistá-lo.

 

Perguntou-lhe se era graduado da Legião Portuguesa, pois só um membro dessa instituição teria a coragem de enfrentar uma situação semelhante.

 

O homem respondeu que não, que não pertencia à Legião, que não se metia nessas coisas, que o seu interesse era apenas trabalhar e ganhar honestamente o sustento dos seus.

 

O jornalista perguntou-lhe a seguir se era membro da União Nacional.

 

Mais uma vez o homem respondeu que não, que a política não era coisa que o atraísse. Que o seu interesse era a família e que só muito depois vinha algum entusiasmo, por exemplo por futebol, indo ver de vez em quando um joguinho do Sporting, do Benfica, do Belenenses ou do Carcavelinhos.

 

O jornalista continuou a entrevista perguntando-lhe se tencionaria inscrever-se na milícia e no movimento cívico já mencionados, pois certamente para tal iria ser convidado, na sequência da coragem demonstrada na luta contra o leão.

 

Já atrapalhado, o homem foi-se esquivando, dizendo que não tinha jeito para a política, que a sua política era trabalhar para ter uma vida sossegada, honesta e em paz com a sua família, ter a sua licença de isqueiro e a carta e matrícula da bicicleta em ordem, e que não se sentia preparado nem merecedor da honra de ser membro daquelas organizações.

 

Insistiu o jornalista que então certamente era apoiante incondicional de Sua Excelência o Sr. Presidente do Conselho e do Estado Novo, pois só isso era de esperar de alguém capaz da façanha que acabava de se verificar.

 

O homem, cada vez mais atrapalhado, lá foi dizendo que a sua opinião política não tinha o menor interesse, que a sua vida era casa/ trabalho e trabalho/casa sem fazer ondas nem se meter em outras aventuras que não fossem de vez em quando, um joguinho de futebol.

 

O jornalista, finalmente, entendeu que já tinha a sua reportagem e entrevista.

 

No dia seguinte o Diário da Manhã noticiava:

 

“Leão barbaramente assassinado por um comunista”

publicado por jpargana às 18:30

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Este blog é uma colectânea de reflexões do autor sobre temas de interesse geral e da sociedade e ambiente que o rodeiam.
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