Rua do Saco

Janeiro 06 2012

Entendamo-nos:

 

Sou pensionista.

 

Não fui Funcionário Público, mas fui Servidor do Estado.

 

Não sou de esquerda.

 

Sou indignado, embora não encartado (não pertenço aos Indignados). Estive várias vezes à rasca, ao longo da minha vida, como muitos da minha geração, sem estar filiado em nenhuma Geração À Rasca.

 

Ouvi com estupefacção, há algum tempo, o Sr. Presidente da República manifestar a sua preocupação pela medida do corte de subsídios aos Funcionários Públicos e aos Pensionistas.

 

Segundo Sua Excelência, foi violado o Princípio da Equidade Fiscal, descriminando negativamente os funcionários públicos.

 

É pena que, ao que parece, seja esse o único princípio que preocupa Sua Excelência.

 

Era bom que Sua Excelência se preocupasse com o Princípio da Equidade Ponto Final.

 

Era bom que Sua Excelência se detivesse a pensar de onde vieram os mais de 13 % (números oficiais) dos desempregados do seu País.

 

Que proporção veio do sector privado?

 

Que proporção veio do sector público?

 

Era bom que Sua Excelência se preocupasse com quem vai ter que pagar os quadros e funcionários excedentários dos organismos, institutos e empresas públicas inúteis que por imposição dos nossos credores (sem eles, tudo continuaria como está) vão(?) ser extintos.

 

Onde está a equidade, se compararmos estes quadros e funcionários, cujo estatuto de blindagem do emprego enviará para algumas mais ou menos tranquilas “prateleiras”, com os colaboradores das dezenas de empresas que diáriamente fecham no País e que irão engrossar os tais mais de 13% de desempregados?

 

Sua Excelência está a brincar, ou quê????

 

Se está a brincar, tem muito mau gosto.

 

Ou foi muito infeliz!

 

Sua Excelência é o Presidente de todos os Portugueses. Foi eleito por maioria absoluta. Eu fui um dos que votou em Sua Excelência.

 

Mas Sua Excelência tem que ter a humildade de, com a sua almofada, discutir e reflectir nas motivações dos eleitores.

 

Sua Excelência devia reconhecer que houve muitos que, mais do que em Sua Excelência, votaram contra os seus opositores!          

 

Sua Excelência não deve duvidar que tudo faremos para o ajudar a desempenhar e terminar o seu segundo mandato com a maior dignidade (onde é que já ouvi isto?).

 

Permita-me Sua Excelência que transcreva uma carta aberta que lhe é dirigida e que circula na internet:

 

 

 

"Senhor Presidente
 
Há muito muito tempo, nos dias depois que Abril floriu e a Europa se abriu de par em par, foi V.Exa por mandato popular encarregue de nos fazer fruir dessa Europa do Mercado Comum, clube dos ricos a que iludidos aderimos, fiados no dinheiro fácil do FEDER, do FEOGA, das ajudas de coesão e mais liberalidades que, pouco acostumados,  aceitámos de olhar reluzente, estranhando como fácil e rápido era passar de rincão estagnado e órfão do Império para a mesa dos poderosos que, qual varinha mágica, nos multiplicariam as estradas, aumentariam os direitos, facilitariam o crédito e conduziriam ao Olimpo até aí inatingível do mundo desenvolvido.                                                                                                                                    

 

Havia pequenos senãos, arrancar  vinhas, abater barcos, não empatar quem produzisse tomate em Itália ou conservas em Marrocos, coisa pouca e necessária por via da previdente PAC, mas, estando o cheque passado e com cobertura, de inauguração em inauguração, o país antes incrédulo, crescia, dava formação a jovens, animava a construção civil , os resorts de Punta Cana e os veículos topo de gama do momento. Do alto do púlpito que fora do velho Botas, V.Exa passaria à História como o Modernizador, campeão do empreendedorismo, símbolo da devoção à causa pública, estóico servidor do povo a partir da marquise esconsa da casa da Rua do Possôlo.                                                                                                                                                            

Era o aplicado aluno de Bruxelas, o exemplo a seguir no Mediterrâneo, o desbravador do progresso, com o mapa de estradas do ACP permanentemente desactualizado. O tecido empresarial crescia, com pés de barro e frágeis sapatas, mas que interessava, havia  pão e circo, CCB e Expo, pontes e viadutos, Fundo Social Europeu e tudo o que mais se quisesse imaginar, à sombra de  bafejados oásis  de leite e mel,  Continentes e Amoreiras, e mais catedrais escancaradas com um simples cartão Visa.

 

Ao fim de dez anos, um pouco mais que o Criador ao fim de sete, vendo a Obra pronta, V.Exa descansou, e retirou-se. Tentou Belém, mas ingrato, o povo condenou-o a anos no deserto, enquanto aprendizes prosseguiam a sanha fontista e inebriante erguida atrás dos cantos de sereia, apelando ao esbanjamento e luxúria.

 

No início do novo século, preocupantes sinais do Purgatório indicaram fragilidades na Obra, mas  jorrando fundos e verbas, coisa de temerários do Restelo  se lhe chamou. À porta estava o novo bezerro de ouro, o euro, a moeda dos fortes, e fortes agora com ela seguiríamos, poderosos, iguais. Do retiro tranquilo, à sombra da modesta reforma de servidor do Estado, livros e loas  emulando as virtudes do novo filão foram por V.Exa endossados , qual pitonisa dos futuros que cantam, sob o euro sem nódoa, moeda de fortes e milagreiro caminho para o glorioso domínio da Europa.

 

Migalha a migalha, bitaite a bitaite, foi V.Exa pacientemente cozendo o seu novelo, até que, uma bela manhã de nevoeiro, do púlpito do CCB, filho da dilecta obra, anunciou aos atarantados povos estar de volta, pronto a servir. Não que as gentes o merecessem, mas o país reclamava seriedade, contenção, morgados do Algarve em vez de ostras socialistas. Seria o supremo trono agora, com os guisados da Maria e o apoio de esforçados amigos que, fruto de muito suor e trabalho, haviam vingado no exigente mundo dos negócios, em prol do progresso e do desenvolvimento do país.

 

Salivando o povo à passagem do Mestre, regressado dos mortos, sem escolhos o conduziram a Belém, onde petiscando umas pataniscas e bolo-rei sem fava, presidiria, qual reitor, às traquinices  dos pupilos, por veladas e paternais  palavras ameaçando reguadas ou castigos contra a parede. E não contentes, o repetiram segunda vez, e V. Exa, com pungente sacrifício lá continuou aquilíneo cônsul da república, perorando homilias nos dias da pátria e avisando ameaçador contra os perigos e tormentas que os irrequietos alunos não logravam conter. Que  preciso era voltar à terra e ao arado, à faina e à vindima, vaticinou V.Exa, coveiro das hortas e traineiras; que chegava de obras faraónicas, alertou, qual faraó de Boliqueime e campeão do betão;  que chegava de sacrifícios, estando uns ao leme, para logo aconselhar conformismo e paciência mal mudou o piloto.

 

Eremita das fragas, paroquial chefe de família, personagem de Camilo e Agustina, desprezando os políticos profissionais mas esquecendo que por junto é o profissional da política há mais anos no poder, preside hoje V.Exa ao país ingrato que, em vinte anos, qual bruxedo ou mau olhado, lhe destruiu a obra feita, como vil criatura que desperta do covil se virou contra o criador, hoje apenas pálida esfinge, arrastando-se entre a solidão de Belém e prosaicas cerimónias com bombeiros e ranchos.

 

Trinta anos, leva em cena a peça de V.Exa no palco da política, com grandes enchentes no início e grupos arregimentados e idosos na actualidade. Mas, chegando ao fim o terceiro acto, longe da epopeia em que o Bem vence o Mal e todos ficam felizes para sempre, tema V.Exa pelo juízo da História, que, caridosa, talvez em duas linhas de rodapé recorde um fugaz Aníbal, amante de bolo-rei e desconhecedor dos Lusíadas, que durante uns anos pairou como Midas multiplicador e hoje mais não é que um aflito Hamlet nas muralhas de Elsinore, transformado que foi o ouro do bezerro em serradura e  sobrevivendo pusilâmine como cinzento Chefe do estado a que isto chegou, não obstante a convicção, que acredito tenha, de ter feito o seu melhor.

Respeitoso e Suburbano,  devidamente autorizado pela Sacrossanta Troika
 
António Maria dos Santos
Sobrevivente (ainda) do Cataclismo de 2011"

 

Com um abraço ao João Mira, e os cumprimentos ao Sr. António Maria dos Santos, que não conheço pessoalmente.

 

 

 

publicado por jpargana às 20:04

Este blog é uma colectânea de reflexões do autor sobre temas de interesse geral e da sociedade e ambiente que o rodeiam.
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